Desigualdade também rouba o sono

Dados do Vigitel 2025, apresentados pelo Ministério da Saúde, revelam que mulheres dormem pior do que homens no Brasil, evidenciando como a sobrecarga cotidiana compromete o descanso e a qualidade de vida. O sono insuficiente não é escolha individual, mas consequência de uma organização social que explora o tempo e o corpo das mulheres.

Por Julia Portela

A rotina de trabalho múltipla imposta às mulheres, que combina jornada profissional, trabalho doméstico não remunerado e responsabilidades de cuidado tem impactos diretos e profundos na saúde. Dados do Vigitel 2025, apresentados pelo Ministério da Saúde, revelam que mulheres dormem pior do que homens no Brasil, evidenciando como a sobrecarga cotidiana compromete o descanso e a qualidade de vida. O sono insuficiente não é escolha individual, mas consequência de uma organização social que explora o tempo e o corpo das mulheres.


A privação de sono gera uma dívida que provoca prejuízos emocionais, irritabilidade, déficit de atenção, falhas de memória e dificuldade na tomada de decisões, afetando diretamente a vida profissional e pessoal. Esses efeitos se manifestam no curto prazo e aprofundam o desgaste físico e mental, aumentando conflitos, adoecimentos e afastamentos do trabalho. A lógica produtivista ignora esses impactos e segue exigindo desempenho máximo de quem já opera no limite.


Esse cenário se agrava com as especificidades do corpo feminino. Oscilações hormonais do ciclo menstrual, tensão pré-menstrual e dores como a cólica intensificam distúrbios do sono, ansiedade e depressão. A dor e o sono mantêm uma relação direta: quanto maior o sofrimento físico, pior a qualidade do descanso.


A desigualdade de gênero se expressa, também, na saúde, revelando que a multitarefa e o acúmulo de responsabilidades seguem adoecendo mulheres em silêncio, sem o devido reconhecimento social ou políticas públicas eficazes.