Aumento da passagem pode aprofundar exclusão em Salvador
Esse modelo não apenas fracassou como se tornou socialmente insustentável. Tarifas altas expulsam trabalhadores, estudantes e desempregados do transporte coletivo.
Por Rose Pacheco
O anúncio de um possível aumento na tarifa de ônibus de Salvador para o início deste ano expõe, mais uma vez, um modelo de transporte público que penaliza os mais pobres e transfere recursos públicos para empresas privadas. Atualmente em R$ 5,60, a passagem pode ultrapassar os R$ 6,00 e se tornar uma das mais caras entre as capitais brasileiras, aprofundando a exclusão social e afastando ainda mais usuários do sistema.
Segundo o prefeito Bruno Reis, que deu a notícia enquanto curtia o Festival da Virada, o custo técnico do transporte já estaria em R$ 6,19 por passageiro. A solução apresentada, no entanto, segue a mesma lógica de sempre: aumentar a tarifa paga pela população e ampliar o subsídio bancado com dinheiro público. Trata-se de um ciclo viciado, no qual o usuário paga mais, utiliza menos o sistema e, em seguida, assiste às empresas pressionarem o poder público por novos aportes financeiros para compensar a queda de passageiros.
Esse modelo não apenas fracassou como se tornou socialmente insustentável. Tarifas altas expulsam trabalhadores, estudantes e desempregados do transporte coletivo, restringindo o direito básico de circular pela cidade. Ainda assim, os contratos de concessão seguem blindando as empresas, garantindo equilíbrio financeiro às custas do erário.
O subsídio, que deveria ser instrumento de política pública para garantir acesso e moderação tarifária, acaba funcionando como uma transferência direta de recursos públicos para concessionárias, sem contrapartidas proporcionais em qualidade, transparência ou eficiência do serviço. Enquanto isso, o usuário enfrenta ônibus lotados, frota envelhecida e tempo excessivo de deslocamento.
“Tratar o transporte coletivo apenas como um serviço regido por contratos é ignorar sua natureza essencial. Mobilidade urbana é direito social e condição básica para o acesso ao trabalho, à educação, à saúde e ao lazer”, destacou o secretário do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte da Bahia, Augusto Vasconcelos. Persistir em reajustes sucessivos revela uma opção política de preservar a lógica do mercado mesmo quando ela exclui grande parte da população.
