O capital engole o prato do trabalhador
O chamado "custo social da alimentação" revela o peso invisível que recai sobre os ombros do trabalhador: o esgotamento emocional e físico para planejar, comprar e preparar a alimentação diária.
Por Julia Portela
O ato de se alimentar tornou-se uma gincana de sobrevivência para os trabalhadores brasileiros. Entre jornadas exaustivas e salários apertados pela inflação, o almoço deixou de ser um direito ao descanso e à nutrição para se transformar em um cálculo frio de custo-benefício.
A escolha entre o restaurante por quilo, a marmita requentada ou o ultraprocessado barato não é uma questão de preferência individual ou falta de educação alimentar, mas o reflexo direto de um sistema que prioriza o lucro invés da saúde de quem produz a riqueza do país.
Dados da pesquisa “Comportamento alimentar: percepções e desafios da alimentação saudável”, do Pacto Contra a Fome e do Instituto Pensi, confirmam que o trabalhador compreende a importância da boa nutrição, mas é impedido de executar pela realidade do mercado de trabalho. O abismo entre o saber e o comer é cavado pela falta de tempo, principalmente no cotidiano bancário e operacional, a saúde é rifada em troca da produtividade desenfreada exigida pelo sistema financeiro.
O chamado "custo social da alimentação" revela o peso invisível que recai sobre os ombros do trabalhador: o esgotamento emocional e físico para planejar, comprar e preparar a alimentação diária. Não se trata apenas do preço na prateleira, mas da estrutura perversa que nega ao trabalhador o tempo livre necessário para o autocuidado. O sistema impõe um ritmo que inviabiliza o preparo de alimentos frescos, empurrando a categoria para o consumo de produtos industrializados que, embora práticos, não nutrem e adoecem o corpo a longo prazo.
Para agravar o cenário, a indústria alimentícia lucra ao vender a falsa ideia de que a comida saudável é incapaz de saciar a fome de quem encara turnos extensos. O marketing agressivo dos ultraprocessados e a facilidade dos aplicativos de entrega mascaram a precarização da vida, oferecendo soluções paliativas e inflamatórias para o cansaço. É urgente denunciar essa lógica: comer bem é um ato político e um direito fundamental que o capital tenta, diariamente, transformar em mercadoria de luxo.


