Escravidão, uma dívida que o mundo ainda não pagou
Com o apoio do Brasil, a Organização das Nações Unidas aprovou resolução que reconhece o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade. Apesar de a decisão ser simbólica, expõe uma dívida histórica ainda longe de ser quitada.
Por Ana Beatriz Leal
Com o apoio do Brasil, a Organização das Nações Unidas aprovou resolução que reconhece o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade. Apesar de a decisão ser simbólica, expõe uma dívida histórica ainda longe de ser quitada.
Entre os séculos XV e XIX, cerca de 12,5 milhões de africanos foram sequestrados e enviados à força para as Américas. O Brasil, último país do Ocidente a abolir a escravidão, recebeu quase 5 milhões de pessoas. A desigualdade racial que marca o país, hoje, é uma herança maldita.
A resolução, proposta por Gana e apoiada por 123 países, abre caminho para políticas de reparação, o que causa incômodo nas potências globais. Estados Unidos, Israel e Argentina votaram contra, enquanto nações europeias diretamente envolvidas no tráfico, como Reino Unido, Portugal e Espanha, optaram pela abstenção. A justificativa de que o texto criaria uma “hierarquia de crimes” revela mais sobre a resistência política em assumir responsabilidades do que sobre uma preocupação jurídica legítima.
No Brasil, onde o racismo estrutural define quem vai ter acesso à renda, educação e trabalho, a decisão da ONU ganha peso. Para os movimentos sociais, é um passo importante, mas ainda insuficiente. É imperioso rever estruturas que perpetuam desigualdades, redistribuir oportunidades e enfrentar privilégios historicamente consolidados.
