Fitness não é saúde, é mercado

O faturamento do mercado nacional que chega a R$ 12 bilhões por ano e o avanço das redes sociais revelam um modelo de lucratividade baseado na exposição constante, na comparação e na padronização de corpos inalcançáveis para a maioria da população trabalhadora.

Por Julia Portela

A indústria fitness tornou-se um dos setores que mais crescem no capitalismo contemporâneo, movimentando bilhões enquanto se alimenta do aumento da ansiedade, da insatisfação corporal e do adoecimento mental. O faturamento do mercado nacional que chega a R$ 12 bilhões por ano e o avanço das redes sociais revelam um modelo de lucratividade baseado na exposição constante, na comparação e na padronização de corpos inalcançáveis para a maioria da população trabalhadora. Esse processo não é neutro: ele reforça desigualdades, aprofunda a culpa individual e desvia o debate sobre saúde das condições materiais de vida.
 

O discurso dominante transfere para o indivíduo a responsabilidade por problemas que são estruturais. Jornadas exaustivas, baixos salários, insegurança alimentar e falta de políticas públicas de lazer e prevenção são apagados por uma narrativa que vende suplementos, procedimentos e programas milagrosos como solução.
 

A estética corporal passa a funcionar como critério moral: quem não se enquadra é tratado como desleixado, improdutivo ou fracassado, legitimando novas formas de exclusão social.
 

Esse modelo cumpre um papel político ao disciplinar corpos e subjetividades segundo a lógica do desempenho permanente. A indústria do corpo transforma saúde em mercadoria e sofrimento em oportunidade de lucro, enquanto o capital avança sobre mais uma dimensão da vida.
 

Enfrentar o problema exige denunciar a falsa neutralidade do mercado, defender políticas públicas de saúde integral e afirmar que dignidade, descanso e bem-estar não são privilégios individuais, mas direitos da classe trabalhadora.