O mercado joga com a velhice

Sem políticas de lazer, cultura, saúde mental e convivência, o celular passa a ocupar o centro da vida cotidiana.

Por Julia Portela

A indústria da tecnologia avança sem freios sobre a população idosa e envelhecimento se torna mais um campo de exploração do lucro. Em um sistema que abandona quem envelhece, os smartphones ocupam o lugar das políticas públicas, das redes de cuidado e da convivência social, aprisionando milhares de pessoas idosas em uma rotina de dependência digital estimulada pelo mercado.

 

 

Os números escancaram a realidade. Segundo a pesquisa TIC Domicílios 2025, 81% das pessoas entre 60 e 69 anos possuem celular, entre 70 e 79 anos o número chega a 66% e acima dos 80 anos, 35%. Nas classes AB, os percentuais são ainda mais elevados: 96%, 87% e 43%, respectivamente, evidenciando como a lógica de consumo digital se espalha como mercadoria empurrada de forma agressiva para todas as idades.

 

 

Sem políticas de lazer, cultura, saúde mental e convivência, o celular passa a ocupar o centro da vida cotidiana. O isolamento, o tempo ocioso e as limitações impostas pelo envelhecimento criam o terreno ideal para a captura da atenção por jogos, redes sociais e conteúdos vazios, aprofundando a alienação e a solidão de quem deveria estar sendo protegido.

 

 

Este cenário não é acidente, é projeto. O modelo ultraliberal lucra com golpes, apostas, desinformação e endividamento, explorando a vulnerabilidade das pessoas idosas e transferindo para elas o custo de um sistema que se recusa a cuidar. Enquanto o capital acumula, o envelhecimento é tratado como descarte, e a dependência digital se consolida como mais uma forma de violência social.