“A China não é imperialista”
Considerado um dos maiores estudiosos da experiência chinesa, o geógrafo e professor da pós-graduação em Ciências Econômicas e em Relações Internacionais da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Elias Jabbour, garante que “a China não é imperialista”. Ele foi palestrante do Seminário Internacional de Formação Política e Sindical, promovido pela CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), entre os dias 27 e 31 de janeiro, em Salvador, e concedeu entrevista exclusiva para O Bancário.
Por Rogaciano Medeiros
O Bancário - Como definir imperialismo no Século XXI, terceiro milênio?
Jabbour – A definição de imperialismo no século XXI precisa ir além das visões simplistas que a reduzem à mera exportação de capitais. Eu retomo a concepção de Lênin, que via o imperialismo como “a reação em toda a linha”. Isso se manifesta como uma tendência à violência, à dominação externa e à submissão dos povos. No cenário atual, o imperialismo se expressa não apenas pela força militar, mas também por uma “estratégia do caos”, na qual os Estados Unidos, em sua fase de decadência hegemônica, utilizam o protecionismo, as sanções e a desestabilização para tentar manter sua posição. As tarifas e o dólar, por exemplo, tornaram-se armas de destruição em massa para subjugar nações.
O Bancário - O imperialismo só se materializa na forma belicosa dos EUA?
Jabbour - Não, o imperialismo não se resume à forma belicosa. Ele se materializa também na atuação de instituições como o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial, que impõem um padrão de acumulação baseado na financeirização e em condicionalidades. Eles oferecem empréstimos exigindo que os países privatizem seus ativos, abram suas contas de capital e desregulamentem o mercado de trabalho. Essa é uma forma de dominação que perpetua a dependência e o subdesenvolvimento. A China, ao contrário, surge como uma alternativa, oferecendo financiamento para infraestrutura sem interferir nos assuntos internos dos países.
O Bancário - É possível afirmar que a China tenha objetivos imperialistas?
Jabbour - Eu afirmo categoricamente que a China não é um país imperialista. Classificar a China como tal é um “estupro conceitual”. Minha análise se baseia em sua história, filosofia e prática. A China se desenvolveu a partir de uma base agrária e de corpos filosóficos como o confucionismo e o taoísmo, que promovem a tolerância e a civilidade. Sua política externa reflete isso. A China busca o comércio, não a dominação. Enquanto o discurso dos EUA é de “liderar o mundo”, o da China é de “construir um futuro compartilhado”. A China não impõe seu modelo político nem vende “consultorias sobre democracia”, ela entrega pontes, ferrovias e projetos de industrialização.
O Bancário - Você concorda que a hegemonia do macro poder global esteja se deslocando do Ocidente (EUA) para o Oriente (China)?
Jabbour - Sim, concordo plenamente. Estamos vivendo uma nova época histórica, marcada pela decadência do imperialismo norte-americano e pela ascensão da China. A hegemonia dos EUA está em declínio devido à financeirização de sua economia, que a tornou incapaz de promover novas revoluções industriais, e à perda de sua capacidade produtiva. A China, por outro lado, construiu uma economia resiliente, baseada na produção real e no consumo interno, e alcançou uma posição estratégica em setores-chave, como o de terras raras. Essa transição de poder não é pacífica; ela gera um
aumento da coerção internacional e da violência por parte da potência decadente.
O Bancário - Como o Brics pode ajudar a América Latina a enfrentar a nova versão da Doutrina Monroe e o mundo a conter a fúria imperialista?
Jabbour - O Brics, e a presença chinesa em particular, representa uma janela de oportunidade histórica para a América Latina. Ele oferece uma alternativa à Doutrina Monroe ao apresentar-se como um parceiro que não impõe condicionalidades políticas nem interfere em assuntos internos. A China, por exemplo, tornou-se o maior credor dos países periféricos, substituindo o FMI e o Banco Mundial, e seus investimentos em infraestrutura são cruciais para o desenvolvimento. Para o Brasil, o momento exige uma abordagem estratégica com os chineses, buscando a partilha de tecnologias que nos permitam construir nossas próprias cadeias produtivas e promover uma nova revolução industrial. O Brics é um instrumento fundamental para a construção de uma nova governança global multipolar, que pode ajudar a conter a fúria imperialista.
O Bancário - O Brics pode avançar para, além da parceria comercial, adotar uma espécie de proteção militar aos países membros do bloco?
Jabbour - Eu acredito que, diante da crescente militarização global e da projeção de poder do imperialismo americano, a tendência inevitável para o Brics é transcender a cooperação puramente comercial e econômica. Para garantir a sobrevivência e a soberania de seus membros e do Sul Global como um todo, o bloco precisará se transformar em uma aliança estratégica de defesa. Minha análise parte da constatação de que estamos em uma nova era de conflito. Não se trata apenas de uma disputa comercial, é uma “guerra híbrida, comercial e convencional”. Os Estados Unidos, em sua fase de decadência hegemônica, utilizam uma “estratégia do caos”, transformando tarifas e sanções em “armas de destruição em massa”, para desestabilizar nações que desafiam sua ordem. Nesse contexto, o Brasil se tornou um dos três grandes pontos de tensão mundial, ao lado da Ucrânia e de Taiwan, o que eu classifico como o “epicentro da luta mundial”. É verdade que, no curto prazo, o Brics ainda não está consolidado como um bloco econômico coeso para oferecer respostas imediatas a essas agressões. Para aproveitar as oportunidades geradas pelo grupo, a classe política brasileira, por exemplo, precisa primeiro definir que lugar quer para o país no mundo. No entanto, a própria natureza da ameaça força uma evolução. Quando afirmo que o Brasil será alvo de uma “intensa guerra híbrida”, com desinformação, sabotagem e pressão internacional, fica claro que as respostas não podem ser apenas econômicas. A China, por exemplo, embora não deseje o conflito direto, sabe que, se provocada, a resposta será “no mais alto calibre”. Isso demonstra que a dimensão militar, ainda que reativa, é uma realidade incontornável. Portanto, embora a cooperação militar não seja o objetivo inicial do Brics, a conjuntura de um imperialismo que não hesita em usar a força e a coerção para manter sua hegemonia empurra o bloco nessa direção. A ordem multipolar que a China e outros membros do Brics pregam, na qual países como o Brasil podem ser fortes e industrializados, só pode ser sustentada se houver uma capacidade de defesa coletiva. A transformação do Brics em uma aliança de defesa do Sul Global não é uma questão de escolha, mas uma necessidade imposta pela fúria de uma potência em declínio.
O Bancário - Com o fim do Tratado de Ialta e o desmonte da ONU, o que fazer por uma nova governança global, uma outra geopolítica?
Jabbour - O mundo que emergiu do Tratado de Ialta e as instituições multilaterais como a ONU (Organização das Nações Unidas) e a OMC (Organização Mundial do Comércio) estão em crise. Estamos em uma nova ordem mundial ultra protecionista e conflitiva, onde “quem pode mais, leva”. A resposta para essa nova realidade não está em apelar para as velhas instituições, mas em construir uma nova governança global a partir do Sul. Isso passa pela defesa intransigente da soberania nacional e pela retomada de projetos de desenvolvimento industrial. Para a esquerda latino-americana, é fundamental ajustar o discurso para esta nova época, compreendendo que a ascensão da extrema-direita, por exemplo, é uma expressão de uma estratégia neocolonial. A construção de um mundo multipolar, com o Brics como um de seus pilares, é o caminho para uma nova geopolítica mais justa e equilibrada.
